Misticismo na Igreja
Certa vez um jovem tinha se batizado, e eu, que era um adolescente curioso e que esperava muito pelo batismo, perguntei a ele qual era sensação, como ele tinha se sentido ao ser batizado. Ele respondeu:"Nossa! A água estava gelada". Não preciso dizer que fiquei frustrado com a resposta e por muito tempo julguei esse irmão como sendo frio, assim como a piscina que ele entrou. Por muitos anos fui assim e confundia misticismo com piedade. Infelizmente, a realidade não é muito diferente de grande parte da igreja evangélica hoje. O misticismo é um mal que impede o desenvolvimento de uma fé bíblica e um cristianismo verdadeiro. Vou citar aqui alguns erros desta postura e suas consequências.O enorme desejo por experiências sensoriais
Quando tinha uns 6 anos de idade, lembro-me de sentir meu coração arder após meu pai orar por mim no culto e passei a chorar. Por muitos anos busquei essa mesma experiência. Achava que sentir um calafrio, ou o coração queimando significava espiritualidade, e por muitas vezes me senti culpado por não ter visões; Por não sentir, por não ouvir isso ou aquilo. Isso só piorou quando comecei a ler livros como Bom dia, Espírito Santo, que fazem a vida cristã parecer uma sátira de Crônicas de Nárnia, como um lugar onde você vê e sente coisas incríveis o tempo inteiro. A vida cristã não se resume a experiências sensoriais. Elas podem acontecer, mas não é sempre. Nem todo sermão que Jonathan Edwards pregou, as pessoas seguravam na cadeira, chorando e clamando por arrependimento. Até onde sei, isso aconteceu uma vez em toda sua vida.
O homem que procura no cristianismo experiências e êxtases espirituais será muito frustrado, provavelmente seria muito mais feliz nas religiões africanas e outras que priorizam isso, pois a bíblia valoriza muito mais a fé do que essas experiências sensitivas. E fé é exatamente crer sem ver, sem sentir, sem tocar. Gosto de lembrar daquilo que Jesus disse a Tomé e aos discípulos depois de ressurreto:
"Porque me viste, Tomé, crestes; Bem-aventurados aqueles que não viram e creram. Jo.20.29
A ênfase desnecessária em dêmonios
Quando era menino vivia com medo de demônios. "Eles podem estar em qualquer lugar", eu pensava. O movimento neopentecostal substituiu a mensagem cristocêntrica do evangelho, para colocar o diabo no centro. Espalham mais o medo nos crentes do que a esperança do Evangelho, da volta de Cristo e da ressurreição dos mortos como foi ensinado nas escrituras. Mesmo o mais piedoso cristão neste meio, tem em seu coração, o medo de ser possuído por demônios. A paz que Cristo prometeu em Mateus 11.28-30, torna-se difícil de ser vivida na prática. O fardo que era para ser leve, o jugo que era para ser suave, passa a ser pesado e difícil devido o medo e a ansiedade.
Omissão do pecado original e da culpa
Outro grande problema dessa ênfase exagerada, é que deixam de destacar o pecado original como principal fonte dos problemas do homem. O homem, antes de ser escravo do diabo, é escravo do pecado, da sua própria natureza caída. Nas igrejas neopentecostais( e em muitas pentecostais também), o drogado, o assassino, o imoral costumam ser vistos mais como vítimas da influência de demônios do que como culpados. Já não basta a cultura contemporânea justificar os erros dos homens e atribuir a culpa deles a circunstâncias externas, vemos isso também sendo pregado em muitas igrejas: "Tem problemas com sexualidade? Isso é demônio!", "Você não controla seu temperamento? É demônio!", "Ta desempregado? Só pode ser demônio".
A misticidade do monte
Recordo-me de quando costumava ir ao monte quando era adolescente. Numa dessas idas, um dia uma mulher nos disse que não deveríamos descer muito, pois embaixo a luta era maior. Sem saber o porquê, subi junto as pessoas para um local mais apropriado. Não penso que seja errado ir ao monte (embora hoje eu considere essa prática totalmente dispensável). Alguns vão pois em casa ou em outro lugar não têm a devida privacidade ou liberdade de orar. Outros vão por causa da comunhão com os outros irmãos em oração. Nada de errado nisso. O problema é atribuir ao monte, ou qualquer lugar que seja, um status especial ou transcendente em relação a outros lugares. Isso é um grande retrocesso para o cristianismo. Jesus disse a mulher samaritana que haveria os dias em que Deus seria adorado não em um lugar específico, mas em espírito e em verdade. A verdadeira comunhão com Deus nasce no coração do homem piedoso, cujo espírito está amalgamado ao Espírito Santo. Paulo diz que aquele que se une a Cristo, é só um espírito com Ele( 1Co 6.17). Portanto, pouco importa o lugar onde o cristão ora ou adora. Importa muito mais para Deus, o coração e a alma do adorador.
A misticidade do templo
No site da igreja universal, nas regras do templo de Salomão, pode-se ler:
"O objetivo do Templo é proporcionar a todos os visitantes uma experiência única e espiritual com o Altíssimo, como se estivessem na Terra Santa. Para que todos desfrutem dessa experiência, é fundamental que estejam imbuídos de reverência para com o Eterno e Sua Casa."*Perceba que a ideia é fazer com que os membros pensem no templo como um lugar transcendente, onde é possível ter uma experiência única com Deus. Embora apenas a igreja universal possua um templo de Salomão, o conceito de que o local de reunião é a casa de Deus, ou um local único onde se pode entrar em contato com o Senhor, é muito comum a grande parte dos evangélicos. O que é irônico, é que nem existiam lugares apropriados para a reunião na igreja primitiva. No começo se reuniam em casas, depois em catacumbas. Onde havia o povo, havia a igreja, a comunhão e a adoração. Este conceito equivocado impede os crentes de amadurecerem sua fé e sua experiência de adoração torna-se limitada. Além disso, esta ideia ajudou a aumentar o número de desigrejados que passaram a praticamente demonizar o templo e viverem um cristianismo sem sequer congregar com os irmãos.
Talvez os pais da igreja pensassem que ao menos por um momento, venceriam o gnosticismo na igreja. A verdade é que o gnosticismo sempre estará presente nela. O que mencionei ainda é pouco. Existe misticismo em muitos louvores atuais, em pregações diversas, já presenciei na liturgia em várias igrejas. O misticismo é um vício que está no coração do homem sempre tentando-o a ver mais, ouvir mais, tocar mais, tentando fazer a piedade cristã parecer fantástica e surreal. O abandono da tradição ortodoxa nos leva para esse caminho cada vez mais obscuro. Proporcionalmente, o mundo, que é mais materialista, mais positivista, passa a rejeitar o cristianismo, enquanto o misticismo aumenta nas igrejas. Que Deus nos ajude encontrar a verdadeira piedade pela fé, através das disciplinas espirituais, lembrando-nos sempre da ortodoxia, e assim haja um cristianismo forte o bastante para resistir à incredulidade, à idolatria, ao ceticismo e imoralidade existentes hoje no mundo.
*Você pode ler o trecho da igreja universal nesse site: https://sites.universal.org/templodesalomao/regras-de-conduta-no-templo-de-salomao/
Comentários
Postar um comentário