Abriu-se Então os Olhos
Havia uma dúvida terrífica em seu interior, afinal viveu muitos anos de sua vida sem respostas para o seu problema. Tudo que pudera ouvir foram acusações e questionamentos referente ao seu estilo de vida. “Está assim por conta de falhas e pecados”, diziam alguns. “Não, na verdade está desse modo por conta da família que nascera”, diziam outros. Familiarizado com a solidão, o descaso, e também com as trevas de uma vida sem visão, perambulava pela cidade lentamente, tateando para que não se encontrasse com o lugar em que as pessoas mais gostariam de deixá-lo: o chão.
Na cidade, o espírito da população estava em sobressalto pela informação e rumores de um suposto Messias, um tal homem que se diz filho de Deus, causando assim um tremendo burburinho na cidade. Rumores de que alguns enfermos tinham sido curados. A verdade era que ninguém sabia ao certo a veracidade de cada comentário.
Desconfiavam de tudo. Desconfiavam de todos. Aliás, quantos impostores já não tentaram se passar por alguém para ludibriar as pessoas?
Sentado imaginando como seria o movimento de cada pessoa que passara à sua frente, pedia esmolas para poder sustentar-se. Mal sabia o pobre coitado que, aquele dia era o seu dia de sorte, ou melhor dizendo, o dia em que fora decretado que algo acontecesse em sua vida.
O tal suposto messias passou em frente e parou. Houve, a partir dali, um silêncio enorme dentro de si, pois mesmo não enxergando, soube – como que por intuição – que alguém estava parado à sua frente; todavia não fazia ideia de quem poderia ser. Ouviu um barulho semelhante ao escarrar de uma pessoa, após alguns segundos sentiu alguém lhe tocar, sentiu que em sua face havia uma mistura de cuspe e barro. Mal pudera imaginar que em seus olhos havia lodo, nada mais do que apenas lodo. Repentinamente, ouviu uma voz mansa e agradável que disse: “Vá, lava-te!”
Intrigado e totalmente sem reação, obedecer foi a única opção que lhe restara. Direcionou-se a um tanque que estava próximo, e de fato, lavar-se era a solução, tendo em vista que jamais ficaria com o rosto sujo com algo tão nojoso. Agachou-se, levou as mãos até a água do tanque – que por sinal estava muito gélida – e jogou rapidamente em seu rosto. Sentiu a partir daquele momento, de maneira lenta, seus olhos abrirem de uma forma inexplicável.
Inevitavelmente, ficara atônito, mas ao notar que conseguira distinguir o que era lama, o que era água, e o que eram lágrimas, dentro de si eternamente algo mudara. Outro pensamento não ocupou sua mente, senão o fato de que aquilo só poderia ser um milagre.
Encontrara, naquele dia, com aquele que era o filho de Deus, assim sendo, teve sua vida totalmente transformada. Não havia explicação para aquilo que vivenciava, foram longos anos sem apreciar as belezas existentes ao seu redor, que nem sabia por onde começar. Obteve a visão, entretanto parece que perdera a fala, pois gaguejou e quase não conseguindo pronunciar palavra alguma, disse: “Era cego, agora vejo!”.

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