Rúben



É o quinto dia de viagem. Os camelos caminham vagarosamente. O trajeto é longo, e nem chegamos perto da metade. Estou, junto com meus dez irmãos, a caminho do Egito. A minha frente tem um mar. Sua extensão parece não ter fim. Sua largura parece ser incomensurável. Quisera o Senhor que fosse este mar de água. Não o é. É de areia. O sol, com seu calor intenso, castiga minha carne, ela no entanto parece estar acostumada com o castigo. Habituou-se a ele. Talvez porque saiba que o merece.

A culpa, tal como o carrasco sol, fere-me constantemente. Razões não faltam para isso. Filho primogênito de uma das maiores famílias de Canaã. Herdeiro da terra prometida pelo próprio Deus a meu bisavô. Herdeiro de fortunas, bens, ovelhas, terras. Responsável por liderar a família depois de meu pai. De nada valem essas honras. De nada valem os privilégios de um homem cheio de culpa. Ela rouba cada alegria. Ela seca cada vestígio de felicidade, assim como este sol seca esta terra onde eu passo com meu camelo. Mas não me vejo vítima deste mal, ao contrário, me vejo merecedor. Traí meu irmão José. Destruí a a confiança do meu pai. Deixei-me influenciar pela inveja de meus irmãos.

José era um bom garoto. Havia um brilho nele que o diferenciava de nós, homens crupulentos do campo, guias de ovelhas e de bois. Talvez por isso meu pai o tratasse com mais carinho, talvez por ser filho de Raquel, que era a esposa que mais amava. Fato é que o bom espírito deste jovem, aliado à preferência de meu pai por ele, causava a mim , e a meus irmãos , indignação, inveja, mágoa, e por que não  dizer ódio. Mas ainda era meu irmão, ainda era filho de meu pai. Como primogênito, como líder entre meus irmãos, deveria cuidar do rapaz. Não queria matá -lo ou vendê-lo como escravo. Queria dar uma lição nele, jogando-o naquele poço. Saí e voltei. Quando cheguei ao local do poço, já o tinham vendido como escravo. Escravo! Uma propriedade de uma pessoa. Um ser humano sem dignidade, vulnerável a surras, açoites, trabalho pesado, fome, frio. Provavelmente mal poderia ter uma casa, uma esposa, um filho.

Eu transformei um jovem promissor em um objeto sem honra. Meus irmãos fizeram isso porque eu faltei com responsabilidade e bom senso. Perdi  a confiança do meu pai, e o vejo chorar até hoje. Cada vez que o contemplo assim, é um açoite que recebo, cada vez que tenho um filho e penso em me alegrar, penso no filho que tirei dele. Cada vez que dou uma ordem a um escravo sobre o que fazer, ou penso em puni-lo por alguma falta, uma faca atravessa minha alma. Olho para ele e vejo José. Vejo minha culpa. Ela trabalha de dia e de noite, não permitindo que eu durma bem, não deixando que eu coma direito. Ela abarca tudo na minha vida, assim como esse sol atinge todo esse deserto. Ao tornar José escravo dos midianitas, fiz de mim escravo da culpa.

 Agora, um governador do Egito nos espera. Ele pensa que somos espiões e traidores. Certamente Deus está nos punindo. Até mesmo uma tarefa simples como comprar trigo, torna-se difícil para malfeitores  como nós. É curioso como um homem que está apenas abaixo do faraó, se preocupa com ratos como a gente. O destino sempre procura nos pregar peças. O governador prendeu Simeão, meu irmão  e quer ver Benjamim, meu irmão mais novo e, segundo, e último filho de Raquel. Que Deus proteja a Benjamim. Daria minha vida por ele. O pobre jovem não tem culpa das nossas faltas passadas. Vamos ver o que o destino nos preparou

Comentários

  1. Amei a forma que conta essa história, ficou com gostinho de quero mais rs, aguardando a próxima postagem

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