Davi e o dilema da virtude humana

O renascimento trouxe de volta, ao menos de forma mais intensa, uma apreciação à estética, a dignificação do belo. Davi foi escolhido por Michelangelo para representar essa visão. Não sem razão. Afinal, quem, no seu tempo, seria melhor para representar um conjunto amplo de virtudes? Davi era rico, poderoso como rei, habilidoso como soldado, talentoso como músico e poeta, famoso entre homens e mulheres. Não obstante essas qualidades tendem a deixar o homem mais envaidecido, pedante e impiedoso, contudo isto não ocorre com Davi. Ele foi um rei devoto, misericordioso e temente a Deus. No entanto, um grave deslize em sua vida nos dá uma sensação de amargor, de náusea, de horror, por nos fazer refletir sobre o que há de pior na natureza humana. Vejamos o deslize.

Davi, tendo ficado em casa num momento que em Israel estava em guerra, ao se levantar da cama e subir ao terraço, nota Bate-Seba -esposa de um soldado heteu que lutava por Israel- nua, banhando-se. Davi a cobiçou, depois disso a chamou e com ela cometeu adultério. Ele também a engravidou. Tendo notado que estava grávida, trouxe o soldado heteu na tentativa de convecê-lo a dormir com sua esposa e assim fazê-lo pensar que a criança, resultado de adultério, seria dele. A tentativa não obteve sucesso, pois o soldado recusou-se a dormir com sua mulher enquanto seus irmãos lutavam na guerra . Davi pediu ao comandante do exército que o colocasse na frente da guerra para que fosse morto o soldado. O homem morreu, Davi casou-se com Bate-Seba. Vejamos o que ocorre após o deslize

Natã chama a Davi e conta uma história de um homem rico recebe que visitas em sua casa, e mesmo tendo tudo, toma o único bem de um homem pobre, que é a sua ovelha. Mata o animal e oferece como alimento aos seus amigos. Davi diz que tal homem deveria retribuir o que tomou, e que deveria ser morto. Natã responde dizendo que este homem é o próprio Davi, e que ele matou Urias (nome do soldado heteu), com a espada do exército rival.

É curioso pensar como os sucetivos pecados, que culminou na morte de um soldado leal ao seu rei e a seu povo, procederam de uma pessoa que durante a sua vida fora tão virtuosa, mas que gradualmente teve sua consciência tão enrijecida pelo pecado. Vale ressaltar também a íntima relação entre o moralismo e a depravação humana. O moralismo de Davi tornou-se destituído de compaixão, afoito pela punição,  extrapolando a própria justiça ao ordenar uma punição desproporcional ao crime cometido. Um decreto de pena de morte para um homem que roubou uma ovelha não parece razoável. Este moralismo não é caracterísrico de Davi. Basta recordarmos de outros momentos em que Davi, mesmo numa posição de fazer justiça, opta pela misericórdia, como no caso de Saul que queria matá-lo sem motivos (1Samuel 24.5-6), e de Simei, que desrespeitou a Davi, atirando-lhe pedras, enquanto o amaldiçoava (2 Samuel 16.5-13). Vemos que Davi é mais intransigente, em relação a punição, no momento em que está com a consciência mais contaminada pelo pecado.

Lembro-me uma vez que minha mãe disse que amava a história de Davi até ler este trecho, ela contou que a decepção foi enorme. A sensação é nauseante mesmo, causa-nos desconforto pensar que mesmo o homem mais virtuoso pode cometer o pior dos pecados . O homem carrega em si a potencialidade para cometer o pior pecado. Todos os dias vivemos com esta possibilidade, desde o pior homem até o melhor homem do mundo. Isto é um dilema que temos. O dilema da virtude humana. Apesar do homem ser imagem de Deus, e até certo ponto conseguir reproduzir os seus atributos, a imagem é distorcida e falha, a natureza pecaminosa por vezes predomina. A estátua de Davi feita por Michelangelo é esplêndida, mas se nos aproximarmos dela, é possível que tenhamos a mesma sensação que o personagem vivido por Jude Law (Alfie, o Sedutor. 2004) quando observou uma estátua de Afrodite: "Uma bela escultura. Danificada, de um jeito que você só percebe quando chega bem perto". Para nossa sorte há Aquele que é a imagem do Deus invisível, o resplendor da glória do Pai, a exata expressão do seu ser. Este é aquele que traduz ,em si, o verdadeiro sentido do belo, e nos dá outro dilema, não um amargoso como o anterior, mas um fascinante, até agradável, o qual é: O pecado mais escandaloso pode ser apagado, e o pecador mais imundo pode ser justo e regenerado. Eu posso conviver bem com este dilema

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